Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Eu poderia, simplesmente, mentir e dizer que a presença de Heath Ledger no elenco de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, dirigido por Terry Gilliam, não influenciou o meu interesse pelo filme. No entanto, ao contário de uma esmagadora maioria que ansiou por conferir o resultado da derradeira atuação de Ledger, o que mais despertou a minha curiosidade foi, com o perdão da palavra, a ausência do ator, que foi resolvida de maneira bastante criativa após sua trágica morte em janeiro de 2008, período inicial das filmagens.

Precisaria assistir a O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus mais algumas vezes para começar a entendê-lo de verdade. Ainda assim, arriscarei algumas linhas confusas que tentam exprimir o imenso impacto que o filme provocou em mim.

"Começando pelo começo", falemos do protagonista da história: o Imaginário. Muito além de uma mera representação do pensamento humano, na película, ele é o grande responsável pela existência do Universo, seja ele coletivo ou individual. Desse modo, uma interpretação baseada em teorias psicanalíticas seria quase imediata, porém, não sou nem um pouco gabaritada para falar do filme nesses termos. Atenho-me, pois, aos aspectos subjetivos da obra, isto é, às imagens que refletiram meus sonhos e paixões.


O Imaginário é uma alegoria criada pela "grande mente" do Dr. Parnassus que, quando jovem, viveu em um mosteiro até o dia em que foi visitado pelo Diabo, o qual queria entender qual era a ocupação do monge. Ele explica que, assim como seus companheiros religiosos, seu dever era contar a história do Universo a fim de garantir a sustentação da vida. O Diabo, partidário da ignorância e do mundo apartado dos mitos, duvida dessa explicação e propõe, assim, uma aposta: venceria quem primeiro conquistasse 12 discípulos de suas respectivas crenças. "O poder da imaginação de transformar e iluminar nossas vidas", conforme contaria Parnassus, anos mais tarde, a sua filha, venceu "as necessidades do perigo, do medo, da lendária bênção da ignorância". Como prêmio, o monge conquistou aquilo que ele sempre havia cobiçado: a imortalidade. Passados alguns anos, Dr. Parnassus toma consciência de que a vitória não fora um ato de bondade do Diabo, mas sim uma desgraça anunciada: ninguém mais queria ouvir suas histórias.


É assim que o filme começa, com o Doutor e sua trupe - seus dois ajudantes e sua filha - vagando numa carruagem pela Londres dos dias atuais, imersa na linguagem de sua modernidade autossuficiente. Uma cidade que fala a língua do Diabo. A cena é visualmente impressionante não só pelo contraste entre a miséria urbana e a claridade onírica, mas também pela excelente direção de arte da película. Detalhes e cores estonteantes compõem o palco acoplado à carruagem onde Mercúrio, o mensageiro dos deuses, convida os transeuntes de uma rua londrina a viajarem através da imaginação por meio dos grandes poderes do Doutor.


Esteticamente semelhante a um teatro de marionetes, o espetáculo apresentado pela trupe de Parnassus nos faz lembrar de algo perdido em nós mesmos quando crescemos, mas que ainda repousa em silêncio dentro de nossas almas: a necessidade vital de caminharmos para dentro da imaginação. Ao atravessar o espelho localizado no centro do palco (uma belíssima metáfora que renderia linhas e linhas afora), o espectador entra em um universo inusitado, para não dizer um sonho bizarro, onde seu inconsciente se mistura à mente do Doutor.


Terry Gilliam cria, assim, uma das mais belas representações cinematográficas da humanidade que já vi. Pintando com as cores do absurdo o plano do mito, representado pela extensa teia do Imaginário, o diretor nos faz refletir sobre quem somos e de quê são realmente feitas nossas escolhas. Isso sem falar das ácidas críticas que ele faz contra diversas instituições de nossa sociedade: da Filantropia à Imprensa, nenhum de nossos hábitos grotescos é poupado da ridicularização.


E onde Heath Ledger entra na história? Ele interpreta (magistralmente, diga-se de passagem) Tony, um megalomaníaco encontrado, pela filha e pelos assistentes do Dr. Parnassus, aparentemente enforcado em uma ponte. Tendo perdido a memória após o incidente, ele passa a viver com a trupe do Doutor, reestruturando a apresentação do grupo a fim de atrair mais "clientes" - a cena mais hilária do filme, na minha opinião.


Ao que parece, Ledger faleceu nesse estágio das filmagens. Apesar de profundamente abalado com a morte do companheiro, como ele mesmo afirmou em algumas entrevistas, o diretor tomou fôlego e deu continuidade ao projeto de uma maneira genial e convidou três atores para interpretar Tony: Jude Law, Colin Farrell e Johnny Depp, amigo de Ledger. Dispostos a doar seus cachês para a órfã do ator, os três deram o último toque de genialidade em O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus, fragmentando, brilhantemente, a imersão da personagem no plano da imaginação. Pena que a um preço tão alto.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

"Almas à Venda"


Fãs de Allen e Gondry: uni-vos!
Com elementos característicos dos filmes de Woody Allen e Michel Gondry, “Almas à Venda” estréia dia 9 de julho nos cinemas brasileiros



Talento e técnica, à primeira vista, podem ser entendidos como competências humanas complementares. Afinal, somente existe arte quando ambas se complementam, isto é, quando a técnica torna-se um meio pelo qual o talento se manifesta. No entanto, tal relação, quase simbiótica, esbarra numa dicotomia de ordem prática: técnica é matéria e o talento, alma.
O que se pode, pois, esperar de um ator desalmado? É exatamente isso o que acontece em “Almas à Venda”, comédia dirigida por Sophie Barthes. Na película, Paul Giamatti, o desajustado Harvey Pekar de “Anti-Herói Americano”, interpreta a si mesmo como um ator às voltas com seu atual trabalho: a peça “Tio Vânia”, de Anton Tchecov. Giamatti não só coloca demasiada dramaticidade numa interpretação que, para o diretor do espetáculo, deveria ser cômica, mas também é incapaz de se dissociar de seu papel ao final dos ensaios.
O ator passa, então, a se sentir, como ele mesmo descreve, “pesado”, quase deprimido. A fim de ajudá-lo a sair de tamanho impasse, um amigo sugere que ele conheça o “Depósito de Almas”, uma espécie de clínica dotada de modernos equipamentos capazes de retirar a alma de seus clientes e torná-los, assim, mais felizes. Qualquer semelhança com “O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, de Michel Gondry, pode não ser mera coincidência.
Apesar de contrariado, Giamatti decide ir ao incomum depósito. Convencido pelo Dr. Flintstein (David Strathairn) de que, ao final do processo, sentir-se-ia muito melhor e seria mais em suas atividades diárias, o ator decide retirar sua alma. Sentindo-se “leve”, ele volta para casa e para os ensaios, mas não a sua vida normal: além de não conseguir interpretar Vânia como outrora o fazia, Giamatti torna-se um homem insensível, prejudicando o relacionamento com sua esposa, Claire (Emily Watson). Arrependido, ele tenta colocar sua alma de volta, porém, ela havia desaparecido. Giamatti inicia uma verdadeira peregrinação atrás de sua alma (e de seu talento), viajando, inclusive, até a Rússia, país onde fica a sede do “Depósito de Almas”.
Merecem destaque o humor irônico e as piadas feitas pelo protagonista sobre a própria tragédia, semelhantes àquelas feitas por alguns dos personagens típicos de Woody Allen. Tal comparação não é equivocada, já que a idéia do filme nasceu de um sonho que Sophie Barthes teve após assistir a “O Dorminhoco”, de Allen.
“Almas à Venda” é uma deliciosa e bem-humorada reflexão sobre a progressiva mecanização de nossa sociedade, na qual a tecnologia e o controlado pensamento racional sobrepõem-se às nossas desordenadas emoções. É, assim, um grito anti-positivista contra a desumanização do trabalho e da arte - esta última, cada vez mais “desalmada” dentro do que se convenciona chamar de Indústria Cultural.
Ainda flertando com a filosofia, o filme é uma tentativa de responder a uma questão constante na história do pensamento humano: desde o “mundo das idéias” de Platão, até o inconsciente freudiano, busca-se entender qual seria a força responsável pela personalidade do ser humano. Em “Almas à Venda”, essa força, a alma, além de poder ser retirada de uma pessoa e “inserida” em outra, tem forma, cor e textura específicas para cada corpo, caracterizando, assim, uma crítica à perda de individualidade com o avanço da técnica.
Caminhando entre a psicológica ficção científica de Gondry e o humor existencialista de Woody Allen, “Almas à Venda” traz uma válida mensagem sobre a sociedade contemporânea. Além de, é claro, contar com a imperdível atuação de Paul Giamatti.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

"15 Anos e Meio"


Quando o óbvio é bem dito
15 Anos e Meio, filme com estreia marcada para julho, se destaca menos pelo enredo do que pelas inteligentes brincadeiras audiovisuais

Philippe Le Tallec (Daniel Auteuil), famoso cientista francês, após trabalhar quinze anos nos Estados Unidos, decide voltar para a casa a pedido de sua ex-mulher, a fim de cuidar de sua filha adolescente, Églantine (Juliette Lamboley). Esse é o mote de 15 Anos e Meio, comédia com estreia marcada para o próximo mês.
A história é bastante comum, tratando de um pai que, para conseguir conviver com a turbulenta adolescência de sua filha, terá de entendê-la. Para isso, ele chega até mesmo a buscar ajuda em uma espécie de “terapia para pais”. A filha, por sua vez, enfrenta os grandes desafios de sua idade: namoros, festas, amizades e o picante blog que relata, detalhadamente, o misterioso relacionamento de Shirley, pseudônimo de uma aluna de seu colégio, com um de seus professores.
15 Anos e Meio, no entanto, se destaca menos pelas atuações e pelo enredo do que pelas pequenas brincadeiras e homenagens feitas pelos diretores, François Desagnat e Thomas Sorriaux. Uma dessas menções honrosas ocorre quando Philippe, com ciúmes de um pretendente de Églantine, imagina-se duelando com o rapaz "à moda antiga". O cenário, as roupas, as armas e a angulação da cena são uma clara referência ao antológico duelo entre as personagens Redmond Barry e Capitão Quinn, de Barry Lyndon, clássico do aclamado diretor Stanley Kubrick.
A imaginação de Phillipe, ademais, não só é responsável por algumas das cenas mais engraçadas do filme, mas também traz certa profundidade psicológica à narrativa: o cientista criou uma espécie de amigo imaginário que é ninguém menos do que Albert Einstein. As fórmulas dadas pelo pai da teoria da relatividade, embora fossem muito úteis dentro dos laboratórios, em nada ajudavam quando o problema era equacionar o relacionamento entre pai e filha. Desse modo, razão e emoção entram em conflito, mostrando que, embora Phillipe seja um cientista premiado, ele não escapa dos desentendimentos comuns aos adolescentes em seus 15 anos e meio.
Em que pesem as desavenças entre Phillipe e Églantine, os dois têm de enfrentar problemas bastante parecidos, o que acaba por aproximá-los. Ambos tentam se adequar às suas novas vidas – a filha, às hecatombes de sua adolescência e o pai, a seus novos empregos como chefe um laboratório e de uma família, em Paris.
Um dos trunfos do filme é, sem dúvidas, falar da adolescência sem ser anacrônico, isto é, com falas e situações incoerentes com tal fase da vida. Na película, são abordados temas próprios da juventude, como sexo e drogas, com uma polidez bastante adequada, sem o famigerado discurso moralista de muitos filmes juvenis.
O filme, portanto, trata do conflito de gerações sem entrar em conflito com sua própria linguagem, tanto no que diz respeito ao modo de falar das personagens, quanto no que se refere à sua estética, marcada por diálogos rápidos, digressões e situações cômicas. 15 Anos e Meio não deixa de ser uma boa pedida, uma vez que, apesar de apresentar um enredo óbvio, traz brincadeiras audiovisuais, no mínimo, inteligentes.